Relatório da Defensoria revela denúncias de violência policial contra mototaxistas, mulheres e idoso durante megaoperação no Rio
Imagens de câmeras corporais mostram abordagens violentas, ameaças de morte, uso de armas de eletrochoque e suspeitas de tortura. Documento também aponta falhas nas gravações da operação que deixou 122 mortos.
Um levantamento produzido pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro identificou possíveis episódios de violência policial contra moradores, trabalhadores e pessoas detidas durante a Megaoperação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão. A ação, que resultou em 122 mortes, voltou a ser examinada um ano depois, a partir de milhares de registros audiovisuais captados por câmeras corporais utilizadas por policiais militares.
Entre as situações documentadas estão agressões contra mototaxistas, um motociclista submetido a sufocamento com um tecido, mulheres atingidas por armas de eletrochoque e um idoso pressionado a excluir do celular imagens de uma abordagem policial. As gravações também apresentam ameaças de execução contra um homem detido e indícios de irregularidades no funcionamento dos equipamentos de filmagem.
A investigação documental foi conduzida pela 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, em parceria com o Projeto Mirante, iniciativa que reúne as Defensorias Públicas do Rio de Janeiro e de São Paulo e o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF). O projeto, que também conta com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, desenvolve atividades independentes de investigação sobre violência policial e institucional.
Procurada pelo g1 para comentar as denúncias apresentadas, a Polícia Militar não havia encaminhado resposta até a última atualização da reportagem original.
Abordagens a moradores incluem agressões, ameaças e disparos de eletrochoque
Uma das partes do relatório concentra-se na conduta de policiais do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (Recom), unidade que participou do bloqueio e do cerco ao Complexo do Alemão durante a operação.
Registros produzidos pelas câmeras de quatro integrantes de uma mesma equipe mostram mototaxistas sendo submetidos a tapas e chutes. Em uma das abordagens, um motociclista aparece sendo sufocado com uma peça de roupa utilizada pelos agentes.
Os pesquisadores também identificaram o emprego de gás lacrimogêneo em um supermercado onde havia informações sobre uma possível ocorrência de saque. Mulheres e crianças estavam no estabelecimento quando os policiais utilizaram o agente químico.
As filmagens mostram trabalhadores passando mal após a dispersão do gás. Em determinados momentos, integrantes da equipe policial aparecem rindo da reação dos funcionários.
Outro conjunto de imagens apresenta mulheres que desembarcavam de um ônibus sendo atingidas por armas de eletrochoque. Pelo menos sete foram detidas durante a ação. Uma das gravações registra o momento em que uma mulher, já dominada, recebe uma descarga elétrica depois de pedir tranquilidade ao policial responsável pela abordagem.
O documento também relata uma situação envolvendo uma mulher que se identificou como profissional da área da saúde. Durante a abordagem, ela reconheceu ter respondido a mensagens relacionadas à movimentação policial na região. Segundo os registros, foi atingida por uma arma de eletrochoque, recebeu insultos e teve gás lançado diretamente contra o rosto antes de ser liberada.
Os áudios revelam que um dos agentes a chamou de informante de criminosos e manifestou vontade de agredi-la gravemente, inclusive com ameaças de quebrar sua perna. O policial também fez comentários sobre a presença da câmera corporal enquanto dirigia ofensas à mulher.
De acordo com a análise da Defensoria, alguns policiais justificavam as abordagens afirmando que os moradores estariam colaborando com integrantes do tráfico de drogas no bloqueio de vias públicas. Entretanto, há registros de pessoas agredidas mesmo depois de terem sido liberadas ou após verificações nos celulares que não identificaram evidências de vínculos com organizações criminosas.
Idoso foi pressionado a apagar gravação de abordagem policial
Entre os episódios analisados está o de um homem idoso que utilizava o telefone celular para registrar a atuação de policiais militares.
Conforme a descrição do relatório, os agentes estavam revistando e agredindo um mototaxista quando o idoso se aproximou em um automóvel e começou a filmar o procedimento.
Ao perceberem a gravação, policiais passaram a intimidá-lo e exigiram que as imagens fossem apagadas. Um dos integrantes da equipe afirmou que poderia encontrá-lo onde quisesse, ordenou que excluísse o vídeo e determinou que deixasse o local.
A situação foi registrada pelas próprias câmeras dos policiais e incluída no levantamento como um dos episódios de constrangimento e ameaça contra pessoas que presenciaram as abordagens.
Homem detido teria sido torturado e ameaçado de execução
Uma das ocorrências consideradas mais graves pelos responsáveis pela análise aconteceu durante uma abordagem realizada por integrantes do Batalhão de Polícia de Choque no Complexo da Penha.
As imagens mostram um homem dominado no chão, enquanto um policial mantém o pé pressionado sobre sua cabeça. Um sargento afirma que o detido teria disparado contra a equipe e abandonado um fuzil durante a ação.
Em determinado trecho, o sargento orienta os demais policiais a conduzirem o homem até um beco, acompanhando a ordem de uma ameaça explícita de morte.
Os registros seguintes apresentam novas intimidações, agressões no rosto e a colocação de um tecido ensanguentado sobre a cabeça do detido. Enquanto o pano permanece sobre ele, os agentes exigem informações sobre o paradeiro da arma.
Em um dos áudios, um policial condiciona o fim do sofrimento da vítima à indicação do local onde estaria o fuzil.
O documento descreve ainda agressões com um pedaço de madeira durante o deslocamento do homem até uma laje. Outros comentários registrados sugerem a possibilidade de arremessá-lo de uma área elevada, incluindo uma fala em que um agente afirma que ele poderia ser lançado ao ar.
As ameaças de execução aparecem em diferentes momentos das gravações, inclusive quando o homem já estava imobilizado e sem condições aparentes de resistência.
A Defensoria identificou também um intervalo de aproximadamente 17 minutos sem imagens do detido. O objeto apresentado como fuzil surge somente depois dessa interrupção, sem que qualquer uma das gravações examinadas mostre o instante em que a arma teria sido localizada.
Até a elaboração do relatório, os responsáveis pela investigação documental ainda não haviam confirmado a identidade do homem que aparece nas imagens.
Mais de 10 mil arquivos foram examinados, mas nenhum mostra as mortes
A análise realizada pela Defensoria compreendeu 10.202 arquivos audiovisuais associados a 529 policiais militares.
Apesar da quantidade de material disponibilizado, os pesquisadores não encontraram gravações que apresentassem o momento de nenhuma das 122 mortes ocorridas durante a Megaoperação Contenção.
Essa ausência de registros impede, segundo o documento, uma reconstrução precisa das circunstâncias dos óbitos e impossibilita conclusões sobre a responsabilidade individual dos agentes envolvidos nos confrontos.
Os autores ressaltam que o fato de as imagens não terem sido disponibilizadas não significa, necessariamente, que nunca tenham sido produzidas. A questão, conforme a análise, exige esclarecimentos das autoridades responsáveis pelo armazenamento e pelo fornecimento do material.
O levantamento aponta também a inexistência de gravações referentes a 69 policiais militares. Outros 50 vídeos foram entregues sem o respectivo código hash, recurso digital utilizado para verificar a autenticidade e a integridade dos arquivos.
Outra irregularidade identificada envolve pelo menos duas câmeras vinculadas ao mesmo registro geral (RG), embora estivessem produzindo imagens simultaneamente em locais distintos. Em uma das gravações, um policial chegou a afirmar que seria capaz de associar centenas de equipamentos ao mesmo documento de identificação.
Câmeras corporais foram cobertas, retiradas dos uniformes e desligadas
As imagens examinadas indicam problemas na utilização dos equipamentos destinados a registrar a atuação policial.
Segundo os pesquisadores, houve episódios em que câmeras foram removidas dos uniformes, direcionadas para paredes ou tetos e cobertas deliberadamente com as mãos, dificultando a visualização dos acontecimentos.
Algumas gravações também foram interrompidas durante abordagens consideradas relevantes para a apuração de possíveis irregularidades.
Em uma ocorrência registrada no Complexo do Alemão, um policial aparece segurando uma ripa de madeira dentro de um supermercado. Logo depois, o agente obstrui a câmera e interrompe a filmagem. Posteriormente, o mesmo equipamento volta a ser bloqueado durante a detenção de um homem.
O relatório aponta ainda inconsistências nos dados de localização e velocidade apresentados pelos dispositivos. Essas falhas prejudicaram a identificação dos trajetos realizados pelos policiais e a associação das imagens aos pontos onde ocorreram as abordagens.
Para os responsáveis pelo estudo, as limitações comprometem a fiscalização das atividades policiais e dificultam a produção de provas capazes de esclarecer os acontecimentos.
Bope concentrou a maior parte dos disparos, mas teve poucas gravações disponíveis
O documento também examinou informações sobre a quantidade de munição utilizada por unidades especializadas da Polícia Militar durante a operação.
De acordo com os dados apresentados, foram contabilizados 13.851 disparos de munição entre as unidades cujos números foram informados. Desse total, 11.995 disparos, correspondentes a 86,6%, foram atribuídos ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Entre os 50 integrantes do Bope com maior consumo de munição, cada um tendo utilizado entre 100 e 300 projéteis, somente oito estavam equipados com câmeras corporais.
As imagens de apenas dois desses oito policiais foram disponibilizadas aos pesquisadores. Em ambos os casos, as gravações foram encerradas antes que os agentes chegassem aos complexos da Penha e do Alemão.
Considerando todo o efetivo da Polícia Militar mobilizado para a megaoperação, o relatório informa que 595 dos 1.802 agentes utilizavam câmeras corporais.
Na Polícia Civil, a análise também identificou limitações relevantes. Embora 128 integrantes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) estivessem sujeitos à obrigatoriedade de utilização dos equipamentos, somente 61 fizeram uso das câmeras, conforme os dados reunidos.
Os pesquisadores responsáveis pelo relatório não receberam gravações dos policiais dessa unidade para a análise desenvolvida pela Defensoria.
A combinação entre o elevado número de disparos, a disponibilidade reduzida de registros audiovisuais e as interrupções nas filmagens foi apontada como um obstáculo para a compreensão completa da operação.
Relatório foi encaminhado a órgãos de fiscalização e investigação
Os responsáveis pela análise reuniram os indícios de violência, as suspeitas de irregularidades no uso dos equipamentos e as dificuldades relacionadas ao acesso às gravações.
O material foi encaminhado na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, ao Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ).
Também receberam o documento as promotorias que atuam perante a Auditoria da Justiça Militar, as corregedorias das polícias Civil e Militar, a Secretaria de Segurança Pública e o gabinete do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
O objetivo dos encaminhamentos é permitir que os órgãos competentes examinem os fatos identificados, apurem eventuais responsabilidades e esclareçam as circunstâncias que não puderam ser determinadas somente com base nas imagens disponíveis.
O relatório não atribui individualmente aos policiais a responsabilidade pelas mortes registradas na operação, mas apresenta elementos que, segundo seus autores, justificam novas apurações.
Polícia Federal concluiu exames de imagens da Core
Paralelamente ao trabalho da Defensoria, a Polícia Federal realizou exames periciais de materiais relacionados à Megaoperação Contenção.
Próximo de completar um ano da ação, a instituição concluiu a análise das gravações provenientes das câmeras corporais utilizadas por integrantes da Core, unidade especializada da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
A informação consta em documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), que acompanha os desdobramentos da operação.
Em 8 de outubro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes determinou o envio à Procuradoria-Geral da República (PGR) de 118 laudos produzidos pela Polícia Federal.
Desse conjunto, 12 documentos foram elaborados a partir de gravações das câmeras corporais da Core. Os outros 106 tiveram como base fotografias e exames cadavéricos disponibilizados pela Polícia Civil.
A Polícia Federal encaminhou ainda uma análise complementar referente às imagens da Core, informando ter encerrado o trabalho pericial relacionado aos registros dessa unidade.
O material enviado, entretanto, não trouxe informações conclusivas sobre possíveis irregularidades investigadas na megaoperação. A instituição informou que não comenta procedimentos investigativos em andamento.
Volume de gravações da PM dificultou o trabalho dos peritos
Diferentemente do material produzido pela Core, as imagens das câmeras dos policiais militares ainda enfrentavam dificuldades para análise pericial.
Conforme informações enviadas pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal, em abril de 2026 a instituição havia recebido 9.025 arquivos de vídeo, provenientes de 504 câmeras corporais da Polícia Militar.
O conjunto correspondia a aproximadamente 4,5 mil horas de gravação.
A Polícia Federal estimou que uma equipe composta por dez peritos precisaria de cerca de três anos para examinar integralmente todo esse conteúdo.
Diante do volume de material, a instituição solicitou que fossem apontados, de maneira objetiva e detalhada, os trechos considerados relevantes para os exames.
As gravações foram devolvidas para que essas indicações fossem realizadas, permitindo que os trabalhos periciais fossem direcionados aos momentos de interesse das investigações.
Também foi solicitado o encaminhamento dos arquivos em mídia física e no formato original, requisito necessário para verificar a integridade dos registros digitais. Segundo o relatório, essa providência não havia sido atendida.
A equipe do g1 procurou a Polícia Militar em 20 de outubro de 2026 para questionar por que os trechos não haviam sido identificados. No dia seguinte, as mesmas perguntas foram encaminhadas ao governo estadual.
Até a última atualização da publicação original, não havia resposta aos questionamentos.
O envio dos 118 laudos à Procuradoria-Geral da República não significa, portanto, que todas as imagens da Megaoperação Contenção tenham sido examinadas ou que os procedimentos periciais estejam integralmente concluídos.
Megaoperação Contenção terminou com 122 mortos
A Megaoperação Contenção aconteceu em 28 de outubro de 2025, nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
A ação envolveu efetivos das polícias Civil e Militar e teve como principais objetivos conter a expansão territorial do Comando Vermelho (CV) e executar mandados judiciais de prisão.
O resultado foi de 122 pessoas mortas, entre elas cinco policiais, fazendo da intervenção a operação policial mais letal já registrada no Brasil.
As circunstâncias da ação passaram a ser acompanhadas pelo Supremo Tribunal Federal no contexto da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas.
O processo reúne determinações e medidas relacionadas à segurança pública, à redução da letalidade e à atuação das forças policiais no estado do Rio de Janeiro.
Além dos exames conduzidos pela Polícia Federal, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro mantém uma investigação própria para esclarecer as mortes e verificar possíveis irregularidades.
Familiares de pessoas que morreram na operação já foram ouvidos pelo órgão, como parte dos procedimentos destinados a reconstruir os acontecimentos e reunir informações sobre as ações policiais.
O Ministério Público Federal também solicitou esclarecimentos ao governo do Rio de Janeiro e à União para identificar eventual utilização de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública na megaoperação.
A apuração busca verificar se houve emprego dessas verbas e, em caso positivo, se sua utilização respeitou as finalidades previstas na legislação, incluindo medidas destinadas à diminuição da letalidade policial.
As conclusões apresentadas pela Defensoria reforçam a necessidade de esclarecimento sobre a conduta dos agentes, o funcionamento das câmeras corporais e a preservação dos registros audiovisuais. A ausência de imagens dos momentos das mortes permanece como uma das principais limitações para a reconstrução dos fatos e para o avanço das investigações.
Fonte: G1

