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Queda de traves de futebol provoca 61 mortes no Brasil ao longo de duas décadas

Levantamento aponta 107 acidentes envolvendo traves de futebol nos últimos 20 anos, com pelo menos 61 mortos e 34 feridos. Crianças de até 12 anos representam 91% das vítimas, enquanto a ausência de uma regulamentação nacional obrigatória amplia a preocupação com a segurança.

Um levantamento divulgado pelo programa Fantástico, da TV Globo, revelou os riscos provocados por traves de futebol instaladas de maneira inadequada em espaços esportivos brasileiros. Nos últimos 20 anos, foram identificados pelo menos 107 acidentes envolvendo essas estruturas, que resultaram em 61 mortes e deixaram outras 34 pessoas feridas. A maioria das vítimas, cerca de 91%, tinha até 12 anos.

Entre os episódios mais recentes está a morte de Heloise, de apenas 3 anos, atingida por uma trave durante uma comemoração do Dia das Crianças, no município de Imbaú, no Paraná. A tragédia voltou a chamar a atenção para a falta de medidas preventivas em campos, quadras e outros ambientes destinados à prática esportiva.

A menina participava de uma festa organizada pela comunidade quando a estrutura caiu sobre seu abdômen. Sua mãe, Casturina da Silva, relatou que segurava a filha pela mão e pretendia acompanhá-la até o carro para guardar um brinquedo e um doce. No momento do acidente, tentou proteger a criança, mas não conseguiu impedir que ela fosse atingida.

https://g1.globo.com/fantastico/video/acidentes-fatais-provocados-por-traves-de-futebol-sao-registrados-pelo-pais-15150711.ghtml

Heloise não resistiu aos ferimentos. Uma semana após a morte, seu pai, Helgrid Leandro, retornou ao campo pela primeira vez. A família ainda procura compreender as circunstâncias que provocaram a queda da estrutura.

Heloise, de 3 anos, vítima fatal da queda de uma trave sem fixação em Imbaú (PR). — Foto: Reprodução/Fantástico

Heloise, de 3 anos, vítima fatal da queda de uma trave sem fixação em Imbaú (PR). — Foto: Reprodução/Fantástico

Casturina afirma que outras crianças continuam frequentando o espaço e demonstra preocupação com a possibilidade de novos acidentes, especialmente se nenhuma providência for adotada para garantir a segurança das traves.

Casos semelhantes foram registrados em diferentes regiões

A morte de Heloise não foi um episódio isolado. Outras famílias paranaenses também enfrentaram tragédias relacionadas à queda de equipamentos esportivos.

Em fevereiro, um menino de 7 anos morreu depois que uma trave atingiu sua cabeça no município de Marquinho. Dois meses depois, Sofia Aparecida perdeu a vida em Prudentópolis, também no Paraná, após ser atingida por uma estrutura que caiu em uma quadra esportiva.

Outro acidente grave aconteceu em Peruíbe, no litoral paulista. Victor Hugo tinha 12 anos quando brincava como goleiro em uma praça e acabou atingido por uma trave que tombou após um chute forte.

O impacto provocou consequências graves à saúde do menino. Ele sofreu sete convulsões, precisou ser intubado e permaneceu em coma induzido. Quando recuperou a consciência, inicialmente não conseguiu reconhecer a própria mãe.

Joice Fernandes, mãe de Victor, relata que o filho continua necessitando de cuidados devido às sequelas. Ele apresenta dificuldades em um dos braços e recebe acompanhamento psicológico.

Para acompanhar o tratamento e atender às necessidades do menino, Joice precisou abandonar o emprego.

A família ingressou com uma ação judicial contra a Prefeitura de Peruíbe por negligência e conseguiu uma decisão definitiva favorável. Entretanto, cinco anos depois do acidente, ainda não havia recebido a indenização, cujo pagamento permanecia na fila de precatórios municipais.

A advogada Selma Santos, responsável pelo caso, sustenta que uma instalação adequada teria impedido o tombamento da trave. Segundo ela, mesmo que a criança tivesse se pendurado na estrutura, como foi alegado pela defesa do município, isso não justificaria a queda de um equipamento devidamente fixado.

Brasil ainda não possui regra nacional obrigatória para traves

Apesar da quantidade de acidentes registrados, o país não conta com uma legislação nacional específica que torne obrigatória a fixação adequada das traves de futebol.

As exigências variam conforme o estado. Em Santa Catarina, não existe projeto de lei sobre o assunto, enquanto no Paraná a discussão legislativa permanece paralisada.

O Rio Grande do Sul, por outro lado, já possui uma legislação estadual que estabelece medidas para reduzir os riscos. A chamada Lei Marina Fallavena determina que traves instaladas em ambientes públicos e privados tenham pelo menos dois pontos de fixação, além de passarem por inspeções periódicas.

A norma recebeu esse nome em homenagem a Marina Fallavena, menina de 11 anos que morreu após ser atingida por uma trave instalada de maneira inadequada.

A legislação gaúcha estabelece multas para quem descumprir as exigências. Nos casos de reincidência, também está prevista a perda da autorização para o funcionamento de atividades econômicas.

Parques, clubes, condomínios, escolas, praças e escolinhas de futebol tiveram um prazo de um ano e meio para realizar as adaptações necessárias. A fiscalização exige um laudo técnico que comprove as condições de segurança dos equipamentos.

De acordo com Luana Frasson, diretora da Secretaria de Obras do Rio Grande do Sul, o método de fixação deve considerar fatores como as características do terreno e as condições do solo.

A representante destaca que o investimento necessário para garantir a estabilidade das traves é relativamente pequeno, com custo que não ultrapassa R$ 500, independentemente do modelo de fixação utilizado.

Comportamento das crianças precisa ser considerado na prevenção

O especialista em gerenciamento de riscos Moacyr Duarte, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a segurança de equipamentos esportivos deve levar em consideração a maneira como as crianças costumam interagir com essas estruturas.

Segundo ele, pendurar-se, balançar-se ou brincar nas traves são comportamentos previsíveis durante a infância, ainda que essas atividades não correspondam à finalidade original do equipamento.

O especialista ressalta que o peso e a força exercidos por crianças de até 12 anos não deveriam provocar a queda de uma trave corretamente instalada.

Outro aspecto importante envolve a dinâmica do tombamento. Moacyr explica que, quando a estrutura ultrapassa uma inclinação de 45 graus, ocorre um aumento da aceleração, tornando o impacto potencialmente ainda mais violento.

As condições de conservação também representam um fator determinante para a segurança.

Na praça de Peruíbe onde Victor Hugo sofreu o acidente, os equipamentos apresentam sinais de corrosão associados à maresia, ao desgaste provocado pelo uso e a atos de vandalismo.

Em Imbaú, a trave responsável pela morte de Heloise foi recolocada em posição vertical e instalada diretamente na terra. Esse tipo de instalação gera preocupação porque o solo pode perder firmeza durante períodos de chuva.

Para Moacyr Duarte, evitar novas tragédias exige atenção ao material utilizado, ao posicionamento dos equipamentos, às condições do terreno e à realização de vistorias regulares.

O custo de uma fixação adequada, estimado em até R$ 500 pela Secretaria de Obras gaúcha, contrasta com os prejuízos causados pelos acidentes. Uma indenização decorrente dessas ocorrências pode alcançar R$ 200 mil, além das consequências humanas e familiares.

Responsáveis pelos espaços apresentam explicações

O proprietário do campo onde Heloise morreu não aceitou participar de uma entrevista gravada, mas conversou por telefone com a equipe do Fantástico.

Ele informou que a comemoração do Dia das Crianças acontece naquele espaço há três anos e atribuiu o acidente às condições climáticas.

Segundo sua versão, a chuva intensa e os ventos fortes teriam provocado o desprendimento dos grampos utilizados para prender a trave ao chão, permitindo que a estrutura tombasse.

A mãe da menina, entretanto, continua questionando como o equipamento caiu, já que, segundo seu relato, a filha não estava mexendo na trave e nenhuma outra pessoa estaria movimentando a estrutura naquele momento.

O local segue sendo utilizado por crianças, situação que mantém a preocupação da família com a possibilidade de novos episódios.

Em relação ao acidente de Victor Hugo, a Prefeitura de Peruíbe informou que realizou a substituição da trave enferrujada envolvida na ocorrência.

Projeto de lei pretende ampliar a segurança em todo o país

Diante da repetição de acidentes envolvendo traves de futebol, uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados busca estabelecer regras de segurança válidas nacionalmente.

O deputado federal Danrlei (PSD-RS), ex-goleiro do Grêmio, apresentou, na última semana de outubro de 2026, um projeto de lei destinado a regulamentar a instalação e a fixação desses equipamentos em espaços públicos e privados.

A iniciativa pretende definir critérios para aumentar a estabilidade das estruturas e reduzir a ocorrência de acidentes, especialmente entre crianças que utilizam campos e quadras para atividades recreativas.

Os números apresentados pelo Fantástico evidenciam a dimensão do problema: em duas décadas, pelo menos 61 pessoas perderam a vida em acidentes com traves de futebol no Brasil.

Enquanto a proposta de regulamentação nacional avança para discussão legislativa, familiares de vítimas continuam convivendo com as consequências dos acidentes e cobrando medidas capazes de impedir que outras crianças sejam atingidas por estruturas que deveriam fazer parte de ambientes seguros de lazer e esporte.

Fontes: Fantástico / TV Globo

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