Anvisa libera Wegovy em comprimidos no Brasil; saiba quando o novo tratamento para obesidade poderá chegar às farmácias
Nova versão da semaglutida dispensa aplicações semanais e promete ampliar as alternativas de tratamento contra a obesidade. Medicamento já é comercializado em outros países, mas ainda depende da definição de preço para começar a ser vendido no Brasil.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, nesta quarta-feira (4), o registro do Wegovy em comprimidos, uma nova apresentação do medicamento utilizado no tratamento da obesidade. Desenvolvida pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, a novidade oferece aos pacientes a possibilidade de substituir as aplicações semanais por uma dose oral diária, desde que haja orientação médica.
A autorização representa um avanço nas opções terapêuticas disponíveis no país. O Wegovy oral é o primeiro medicamento da classe dos agonistas do receptor GLP-1 aprovado no Brasil em comprimidos especificamente para o controle da obesidade e do sobrepeso associado a problemas de saúde.
Apesar da liberação, o produto ainda não pode ser encontrado nas farmácias brasileiras. A fabricante informou que pretende disponibilizar a novidade nos próximos trimestres, mas não apresentou uma data definitiva nem revelou quanto o tratamento custará.
O que falta para o Wegovy em comprimidos começar a ser vendido?
A aprovação da Anvisa permite que o medicamento avance para as próximas etapas necessárias à comercialização no Brasil. Uma delas é a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), responsável por estabelecer os limites de cobrança dos medicamentos comercializados no território nacional.
Somente após o cumprimento das exigências regulatórias a fabricante poderá iniciar a distribuição do produto às farmácias.
O pedido de registro foi encaminhado pela Novo Nordisk em 30 de janeiro de 2026. A autorização foi oficializada por meio da Resolução-RE nº 4.249/2026, publicada no Diário Oficial da União.
A expectativa é que a nova apresentação amplie as possibilidades de tratamento, especialmente para pessoas que apresentam resistência ao uso de medicamentos injetáveis.
Quem poderá utilizar o novo medicamento?
A indicação aprovada contempla adultos diagnosticados com obesidade, caracterizada por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30.
Pessoas com sobrepeso, cujo IMC esteja entre 27 e 29,9, também poderão receber a prescrição, desde que apresentem pelo menos uma condição de saúde relacionada ao excesso de peso, como hipertensão arterial ou diabetes tipo 2.
A utilização do medicamento deverá ocorrer com acompanhamento médico e ser associada a mudanças nos hábitos alimentares e à prática regular de atividades físicas.
A nova apresentação não é destinada ao emagrecimento indiscriminado ou ao uso por pessoas sem indicação clínica.
Como funciona o Wegovy em comprimidos?
O princípio ativo permanece o mesmo utilizado na versão injetável: a semaglutida. Essa substância reproduz parte da ação do hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo e envolvido nos mecanismos de controle da fome e da saciedade.
Ao atuar sobre receptores ligados à regulação do apetite, o medicamento ajuda a reduzir a sensação de fome e favorece a diminuição da quantidade de alimentos consumidos. Ele também retarda o esvaziamento do estômago, contribuindo para prolongar a saciedade após as refeições.
Uma das principais diferenças entre as apresentações está na frequência de administração. Enquanto a caneta é aplicada uma vez por semana, o comprimido deverá ser ingerido diariamente.
A quantidade de princípio ativo também muda. Como a absorção da semaglutida pelo sistema digestivo é limitada, a apresentação oral utiliza uma dose de manutenção de 25 miligramas por dia, enquanto a versão injetável para obesidade emprega 2,4 miligramas por semana.
Essas quantidades não devem ser comparadas diretamente, pois cada formulação apresenta características próprias de absorção e administração.
Comprimido precisa ser tomado em jejum
O tratamento com o Wegovy oral exige cuidados específicos para garantir a absorção adequada do medicamento.
O esquema aprovado prevê aumento progressivo da dosagem, começando com 1,5 miligrama por dia. Posteriormente, a quantidade passa para 4 miligramas, depois 9 miligramas, até alcançar a dose de manutenção de 25 miligramas, conforme prescrição médica.
A administração deve ocorrer em jejum, utilizando uma pequena quantidade de água. Após ingerir o comprimido, o paciente precisa aguardar pelo menos 30 minutos antes de consumir alimentos, bebidas ou outros medicamentos por via oral.
O respeito a essas orientações é fundamental, uma vez que a ingestão inadequada pode comprometer a absorção da substância e reduzir os resultados esperados.
A Anvisa também permite que pacientes realizem a transição entre as apresentações oral e injetável, quando essa mudança for considerada apropriada pelo médico e estiver de acordo com as recomendações da bula.
Estudo aponta redução média de 13,6% do peso corporal
A decisão da agência reguladora brasileira foi fundamentada principalmente nos resultados do estudo clínico OASIS 4, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine.
A pesquisa acompanhou 307 adultos sem diabetes, diagnosticados com obesidade ou sobrepeso associado a condições de saúde relacionadas ao peso. Os participantes foram avaliados durante 64 semanas.
Entre aqueles que receberam a semaglutida oral, a redução média do peso corporal foi de 13,6%. No grupo tratado com placebo, a diminuição média ficou em 2,2%.
Os resultados também mostraram que aproximadamente um terço dos participantes que utilizaram o medicamento conseguiu eliminar pelo menos 20% do peso inicial.
Além do emagrecimento, os pesquisadores observaram melhorias em indicadores relacionados à saúde metabólica e cardiovascular.
A fabricante considera que o desempenho da apresentação oral se aproxima daquele observado com a versão injetável de 2,4 miligramas. Entretanto, os resultados individuais podem variar, e o medicamento não garante a mesma perda de peso para todos os pacientes.
Quais são os possíveis efeitos colaterais?
Assim como ocorre com outros medicamentos da classe GLP-1, o uso da semaglutida pode provocar reações adversas, principalmente relacionadas ao sistema gastrointestinal.
Náuseas, diarreia e outros desconfortos digestivos estiveram entre os sintomas mais relatados durante os testes clínicos.
No estudo OASIS 4, aproximadamente 74% dos participantes que utilizaram o comprimido apresentaram efeitos gastrointestinais, enquanto essa proporção foi de 42% entre aqueles que receberam placebo.
A maioria das manifestações foi considerada leve ou moderada. Ainda assim, cerca de 7% dos pacientes tratados com semaglutida interromperam o uso devido a eventos adversos, ante aproximadamente 6% no grupo placebo.
Esses dados reforçam a importância da avaliação médica antes do início do tratamento, especialmente em pessoas que apresentam outras doenças ou utilizam medicamentos continuamente.
Em quais países o Wegovy oral já está disponível?
Embora a comercialização brasileira ainda não tenha começado, a versão em comprimidos já chegou a mercados internacionais.
Os Estados Unidos foram os primeiros a autorizar o produto, em dezembro de 2025, por decisão da Food and Drug Administration (FDA). As vendas começaram em 5 de janeiro de 2026.
No mercado norte-americano, os valores mensais para pacientes que pagam diretamente pelo tratamento variam de aproximadamente US$ 149, na dose inicial, a US$ 299 nas apresentações mais elevadas.
Os Emirados Árabes Unidos também passaram a comercializar o medicamento em 2026, seguidos pelo Reino Unido e pela Alemanha.
A autorização europeia abriu caminho para a distribuição em países integrantes da União Europeia. A Alemanha iniciou a comercialização em setembro.
O produto também recebeu aprovação regulatória no Bahrein, enquanto a Novo Nordisk trabalha para ampliar sua presença em outros mercados.
Qual a diferença entre Wegovy oral e Rybelsus?
A semaglutida em comprimidos não é completamente inédita no Brasil. A Novo Nordisk já comercializa o Rybelsus, que utiliza o mesmo princípio ativo.
A diferença fundamental está na indicação terapêutica e nas dosagens.
O Rybelsus possui aprovação para o tratamento do diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy oral foi desenvolvido e autorizado especificamente para o controle do peso em adultos que atendam aos critérios clínicos estabelecidos.
Isso significa que os medicamentos não devem ser considerados automaticamente intercambiáveis, apesar de compartilharem a mesma substância.
A chegada do novo Wegovy também ocorre em um período de mudanças no mercado brasileiro de tratamentos à base de semaglutida, marcado pelo encerramento da patente da substância e pela entrada de versões genéricas injetáveis.
O aumento da concorrência poderá influenciar os preços e ampliar as alternativas disponíveis aos consumidores, embora ainda não exista garantia de redução imediata nos custos do tratamento.
Comprimidos podem facilitar a rotina de alguns pacientes
Uma das vantagens da nova apresentação está na possibilidade de dispensar as injeções.
Pessoas que apresentam desconforto com agulhas ou dificuldades para manter a rotina de aplicações semanais poderão encontrar nos comprimidos uma alternativa mais adequada.
Outro diferencial é o armazenamento. Diferentemente das canetas, que possuem exigências específicas de conservação, a apresentação oral não depende de refrigeração nas condições habituais indicadas pelo fabricante.
Isso poderá facilitar o transporte durante viagens e simplificar a organização do tratamento em determinadas situações.
Por outro lado, a necessidade de tomar o medicamento diariamente, em jejum e respeitando o intervalo antes das refeições, exigirá disciplina dos pacientes.
A escolha entre comprimido e injeção deverá considerar fatores como histórico clínico, resposta ao tratamento, tolerância aos efeitos adversos e condições de utilização.
Acesso ao medicamento ainda será um desafio no Brasil
A autorização do Wegovy oral representa uma nova possibilidade para o tratamento da obesidade, mas não significa que o medicamento estará imediatamente disponível para toda a população.
Além da definição do preço e do início da distribuição comercial, permanecem questões relacionadas à acessibilidade financeira e à eventual oferta pelos sistemas público e privado de saúde.
A obesidade é reconhecida como uma doença crônica e multifatorial, frequentemente associada a complicações como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos.
Por essa razão, especialistas destacam que o tratamento precisa ser individualizado, acompanhado por profissionais de saúde e planejado para promover resultados sustentáveis.
Mesmo com os avanços dos medicamentos utilizados no controle do peso, a continuidade do acompanhamento clínico permanece essencial para avaliar a resposta terapêutica, prevenir complicações e reduzir o risco de recuperação do peso após a interrupção do tratamento.
Até o momento, não existe uma data oficial para o início das vendas do Wegovy em comprimidos nas farmácias brasileiras. A expectativa é que a Novo Nordisk apresente novas informações sobre preço e disponibilidade após a conclusão das etapas necessárias à comercialização.
Fonte: G1

