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Adolescente de Rondônia recebe transplante de rim após 13 anos de tratamento; famílias suspeitam que órgão tenha sido doado por jovem goleiro morto em SP

Cáryta Micaelly, de 16 anos, passou por cirurgia em Campinas após enfrentar uma doença renal desde a infância. Familiares acreditam que o doador possa ser Miguel Meneses, goleiro de 14 anos que morreu em um acidente de trânsito no interior paulista.

Uma história marcada pela superação, solidariedade e esperança aproximou duas famílias de estados diferentes. Cáryta Micaelly, de 16 anos, moradora de Ji-Paraná, em Rondônia, recebeu um transplante de rim após passar 13 anos enfrentando uma doença renal hereditária. O procedimento foi realizado no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, no dia 30 de outubro.

A emoção em torno da recuperação da adolescente ganhou um significado ainda mais profundo quando seus familiares descobriram a história de Miguel Meneses, um jovem goleiro de 14 anos que morreu após um acidente automobilístico em São José dos Campos, no interior paulista.

As famílias acreditam que o rim transplantado em Cáryta possa ter pertencido ao adolescente. A suspeita surgiu devido à proximidade das datas dos procedimentos e às características físicas atribuídas ao doador. Entretanto, não existe confirmação oficial de que Miguel tenha sido o responsável pela doação recebida pela jovem, já que a legislação brasileira estabelece regras de confidencialidade sobre a identidade de doadores e receptores.

Doença renal acompanhou adolescente desde os três anos

A trajetória de Cáryta foi marcada por consultas, exames, limitações e constantes deslocamentos em busca de atendimento especializado. Diagnosticada com doença renal policística aos três anos, a jovem precisou enfrentar uma rotina de cuidados médicos durante praticamente toda a infância.

Como sua cidade não oferecia os recursos necessários para o acompanhamento da enfermidade, a família passou a viajar regularmente para Campinas, utilizando o programa Tratamento Fora de Domicílio (TFD), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O serviço permite que pacientes sejam encaminhados para outras localidades quando os procedimentos necessários não estão disponíveis em seus municípios de residência, podendo incluir auxílio com transporte e despesas relacionadas ao tratamento.

Apesar dos esforços médicos, a saúde de Cáryta apresentou uma piora significativa. Em setembro de 2026, seus rins funcionavam com apenas 8% da capacidade. Diante da gravidade do quadro, ela foi incluída na lista de espera por transplante e precisou passar pela implantação de um cateter para iniciar a hemodiálise.

O pai da adolescente, Carlito de Oliveira Lopes, relatou ao g1 que a situação provocou momentos de intensa angústia para toda a família. Segundo ele, a fé e as orações se tornaram fontes de apoio durante o período de incerteza.

Ligação inesperada trouxe esperança à família

Enquanto aguardavam uma oportunidade de transplante, os familiares começaram a avaliar a possibilidade de uma doação realizada pela própria mãe da adolescente, Shirley, que já estava sendo submetida aos exames necessários para verificar a compatibilidade.

O cenário mudou em 28 de outubro, quando a família recebeu uma ligação informando que havia surgido um rim compatível com Cáryta.

A notícia trouxe alívio e mobilizou imediatamente os familiares. Mãe e filha seguiram de Rondônia para São Paulo, onde a adolescente foi internada e passou pelos exames preparatórios.

Na madrugada de 30 de outubro, a equipe médica realizou o transplante. De acordo com Carlito, a recuperação inicial surpreendeu positivamente os profissionais de saúde, pois o órgão começou a apresentar funcionamento logo após a cirurgia.

No dia seguinte, a adolescente já conseguia produzir urina, sinal considerado animador pela família diante das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos.

Para os pais, o transplante representou muito mais do que a realização de um procedimento médico: significou a possibilidade de a filha recuperar parte da liberdade e da qualidade de vida comprometidas pela doença.

História de goleiro morto em acidente chama atenção dos familiares

Enquanto Cáryta se recuperava da cirurgia, seus familiares começaram a buscar informações sobre a possível origem do órgão transplantado.

Goleiro Miguel Meneses, do sub-15 São José. — Foto: Reprodução/Assessoria do SJEC

Foto: Reprodução/Assessoria do SJEC

Segundo o pai, a família havia recebido informações de que o doador seria um adolescente de 14 anos, com aproximadamente 1,82 metro de altura e 75 quilos.

Durante as buscas, os familiares encontraram notícias sobre Miguel Meneses, goleiro das categorias de base do São José Esporte Clube, que havia falecido após um acidente automobilístico em São José dos Campos.

O veículo em que o adolescente estava com familiares perdeu o controle e atingiu uma árvore. Após a confirmação da morte encefálica, os pais autorizaram a doação de seus órgãos.

A captação aconteceu em 29 de outubro, período próximo à cirurgia realizada em Cáryta. A coincidência entre os horários e outras informações divulgadas sobre o caso fortaleceu a suspeita da família de Rondônia.

Ainda assim, a relação entre os dois procedimentos permanece apenas como uma possibilidade levantada pelos familiares, sem comprovação médica ou institucional.

Contato pelas redes sociais aproxima duas mães

Sensibilizados pela história do jovem atleta, os familiares de Cáryta decidiram procurar a mãe de Miguel, Ana Tereza Meneses, pelas redes sociais.

O contato deu início a uma relação emocionante entre duas mães que viviam experiências completamente diferentes: enquanto uma celebrava a recuperação da filha, a outra enfrentava a dor da perda de um filho adolescente.

Ana Tereza contou que recebeu a mensagem de Shirley em um momento de grande sofrimento. Apesar da tristeza, encontrou conforto ao pensar que a decisão de autorizar a doação poderia estar proporcionando uma nova oportunidade de vida a outras pessoas.

A aproximação também emocionou Carlito, que reconheceu a importância da atitude tomada pelos pais de Miguel em circunstâncias tão difíceis.

A família de Cáryta acredita que o transplante representa um novo capítulo na vida da adolescente, que durante anos precisou conviver com restrições alimentares, limitações físicas e uma rotina de tratamentos.

A expectativa agora é que, com o acompanhamento médico adequado, a jovem possa retomar gradualmente atividades e experiências que antes eram prejudicadas pela enfermidade.

Família de Miguel autorizou doação após morte encefálica

A decisão de doar os órgãos do goleiro foi tomada após os médicos confirmarem sua morte encefálica e explicarem aos familiares os procedimentos envolvidos.

Ana Tereza relatou que ela, o marido e o filho Benício concordaram com a doação, mesmo sem terem conversado anteriormente sobre essa possibilidade.

Segundo a mãe, a escolha refletia a personalidade solidária de Miguel, que demonstrava carinho pelas pessoas e gostava de ajudar aqueles que estavam ao seu redor.

O adolescente foi homenageado no hospital com um corredor de aplausos, gesto realizado por profissionais de saúde em reconhecimento à decisão da família.

Foram autorizadas as doações do coração, dos rins, do fígado e das córneas de Miguel. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, os órgãos e tecidos doados contribuíram para salvar quatro vidas.

Para Ana Tereza, a experiência transformou sua compreensão sobre a importância da doação de órgãos. Mesmo diante do luto, ela passou a reconhecer o impacto que uma única decisão pode provocar na vida de pacientes que aguardam um transplante.

Milhares de brasileiros ainda aguardam transplantes

A história das duas famílias também evidencia a importância da conscientização sobre a doação de órgãos no Brasil.

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, elaborado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o país registrou mais de 15 mil notificações de potenciais doadores naquele ano. Entretanto, apenas 4.335 se tornaram doadores efetivos.

O levantamento também apontou aproximadamente 4.200 recusas familiares, correspondentes a uma taxa de 45%.

Em dezembro de 2025, havia 73.877 pessoas aguardando transplantes no país. Desse total, 38.925 esperavam especificamente por um rim, incluindo 272 crianças e adolescentes.

Os números demonstram a dimensão do desafio enfrentado por pacientes e profissionais de saúde, além da relevância da autorização familiar no processo de doação após a morte.

Um gesto de solidariedade que transforma histórias

Para Cáryta e seus familiares, o transplante simboliza a possibilidade de construir uma rotina com menos limitações e novas perspectivas para o futuro.

Para a família de Miguel, a doação representa a continuidade de um legado de solidariedade deixado pelo adolescente, cuja morte precoce provocou grande comoção.

Embora não seja possível afirmar que o rim recebido pela jovem tenha sido doado pelo goleiro, o encontro entre as famílias reforçou a importância da generosidade em momentos de sofrimento.

A história também chama atenção para a necessidade de conversar sobre a doação de órgãos em família, permitindo que os desejos de cada pessoa sejam conhecidos e considerados.

Fonte: G1

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