Golpista do Tinder é condenado a seis anos de prisão após causar prejuízo de R$ 1,5 milhão a mulher em São Paulo
Homem de 57 anos utilizava relacionamentos amorosos para conseguir dinheiro. Vítima contraiu empréstimos, enfrentou dificuldades financeiras e, após se formar em Direito, participou do processo que resultou na condenação.
Um homem de 57 anos foi condenado pela Justiça de São Paulo a seis anos de prisão, em regime fechado, pelos crimes de estelionato e violência psicológica contra uma mulher que conheceu por meio do aplicativo de relacionamentos Tinder. Renato Sérgio Leandro foi responsabilizado por um golpe que provocou prejuízos superiores a R$ 1,5 milhão a uma executiva comercial da Zona Oeste da capital paulista.
A sentença foi proferida em 19 de outubro de 2026. O condenado está detido desde maio no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Mauá, na Região Metropolitana de São Paulo.
O caso ganhou destaque não apenas pelo valor da dívida acumulada, mas também pela determinação da vítima, que enfrentou anos de dificuldades emocionais e financeiras, concluiu sua graduação em Direito e participou da acusação durante o processo judicial.
Relacionamento começou pelo Tinder em 2021
A vítima, identificada pelas iniciais R.L., atualmente com 59 anos, conheceu Renato em junho de 2021. Naquele período, ela estava divorciada havia aproximadamente cinco anos e havia iniciado a faculdade de Direito.
Segundo seu relato, o homem demonstrou atenção e romantismo desde os primeiros encontros. Ele costumava pagar refeições, agir de maneira gentil e fazer declarações amorosas, conquistando gradualmente a confiança da executiva.
Renato se apresentava como professor universitário de Psicologia e especialista em comportamento humano. Também afirmava ter três filhos vivendo no exterior e dizia enfrentar dificuldades para custear o tratamento médico da mãe, supostamente diagnosticada com câncer.
A narrativa sobre problemas familiares e despesas hospitalares foi utilizada para justificar os primeiros pedidos de dinheiro.
Inicialmente, ele solicitou R$ 10 mil emprestados e devolveu quase toda a quantia em pouco tempo. O pagamento contribuiu para fortalecer a confiança da mulher, que passou a acreditar na veracidade das situações apresentadas pelo companheiro.
Falsas emergências médicas aumentaram os pedidos de dinheiro
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Foto: Reprodução
Com o relacionamento estabelecido, Renato começou a relatar novas dificuldades financeiras relacionadas ao tratamento da mãe.
Em determinado momento, afirmou que teria direito a receber uma indenização judicial de aproximadamente R$ 1,3 milhão de uma operadora de plano de saúde. Entretanto, segundo sua versão, o dinheiro ainda dependia de liberação judicial.
Utilizando essa justificativa, pediu mais R$ 12 mil para cobrir despesas hospitalares, prometendo devolver o valor assim que recebesse a suposta indenização.
Para convencer a companheira, chegou a oferecer uma joia de família como garantia. O objeto, que ele dizia valer cerca de R$ 50 mil, foi posteriormente avaliado em aproximadamente R$ 150, conforme relatou a vítima.
A executiva continuou acreditando nas explicações, especialmente porque o homem mantinha uma rotina aparentemente normal e demonstrava envolvimento emocional no relacionamento.
Suposta viagem internacional levou a empréstimo de R$ 322 mil
O golpe ganhou proporções ainda maiores quando Renato informou que viajaria ao Canadá para participar do casamento de um dos filhos.
Durante a suposta viagem, a frequência das mensagens diminuiu. Posteriormente, ele afirmou ter feito uma parada nos Estados Unidos, onde teria sofrido um infarto ao visitar um amigo.
Segundo a história apresentada à namorada, ele havia sido internado em um hospital particular e precisava pagar despesas médicas superiores a R$ 200 mil para conseguir retornar ao Brasil.
Diante da situação, Renato sugeriu que a mulher contratasse um empréstimo bancário para ajudá-lo. Ele prometeu quitar a dívida utilizando o dinheiro da indenização judicial que alegava estar prestes a receber.
Convencida de que estava ajudando o companheiro em uma emergência, a executiva contratou um empréstimo de aproximadamente R$ 322 mil.
Conforme os documentos apresentados no processo, o dinheiro foi repassado para uma conta bancária em nome de Renato por meio de 29 transferências.
Depois de receber os valores, o homem interrompeu o contato com a vítima.
Mulher descobriu golpe após reportagem na televisão
Sem notícias do namorado, a executiva passou dias preocupada com a possibilidade de ele estar enfrentando problemas de saúde ou ter morrido.
A suspeita de fraude surgiu em novembro de 2021, quando uma amiga reconheceu Renato em uma reportagem exibida pela TV Record.
A matéria apresentava relatos de outras mulheres que afirmavam ter sido enganadas pelo mesmo homem em relacionamentos amorosos.
Foi nesse momento que a vítima começou a compreender que as emergências médicas, as promessas de pagamento e as demonstrações de afeto faziam parte de um esquema de manipulação.
A descoberta provocou consequências profundas em sua vida pessoal e profissional.
Dívida ultrapassou R$ 1,5 milhão e afetou saúde emocional da vítima
Embora os valores inicialmente transferidos tenham somado cerca de R$ 322 mil, os juros e encargos bancários fizeram a dívida crescer ao longo dos anos.
Segundo a vítima, o débito já ultrapassa R$ 1,5 milhão.
Para tentar reduzir as obrigações financeiras, ela precisou vender o próprio automóvel. Mesmo assim, não conseguiu quitar os empréstimos.
A situação também comprometeu sua saúde emocional. A mulher relatou ter desenvolvido depressão e enfrentado momentos de sofrimento psicológico intenso, incluindo pensamentos suicidas.
Apesar das dificuldades, decidiu procurar as autoridades para responsabilizar o homem e impedir que outras pessoas passassem pela mesma experiência.
Com apoio de profissionais da 9ª Delegacia de Defesa da Mulher, na Zona Oeste de São Paulo, reuniu documentos, identificou outras possíveis vítimas e colaborou com as investigações.
Durante a apuração, foram descobertas informações diferentes daquelas que Renato havia apresentado durante o relacionamento.
Segundo os elementos reunidos, ele era divorciado, tinha cinco filhos e trabalhava como massoterapeuta.
Ex-esposa e outras mulheres contribuíram para investigação
Uma das testemunhas ouvidas pela Justiça foi uma ex-esposa de Renato, que afirmou tê-lo conhecido quando ele trabalhava como massoterapeuta no Shopping Eldorado.
Ela declarou que, durante o período em que viveram juntos, o homem costumava dividir as despesas domésticas e não tinha o hábito de solicitar empréstimos.
Segundo seu depoimento, Renato desapareceu sem explicações entre 2019 e 2020 e voltou a procurá-la posteriormente.
A mulher também relatou ter recebido mensagens de outras pessoas que afirmavam ter sido vítimas de golpes financeiros praticados por ele.
Durante o processo, Renato informou que já havia sido condenado por extorsão na década de 1990 e cumprido pena em regime semiaberto.
Os depoimentos e os registros bancários integraram o conjunto de provas analisado pela Justiça.
Justiça determina seis anos de prisão e reparação financeira
A juíza Monica Tucunduva Spera Manfio condenou Renato Sérgio Leandro a cinco anos de prisão pelo crime de estelionato e mais um ano por violência psicológica contra a mulher.
A pena total foi fixada em seis anos de reclusão, em regime inicial fechado.
A magistrada também determinou o pagamento de R$ 322.260,00 como reparação pelos prejuízos reconhecidos na sentença.
Na decisão, a Justiça considerou que a conduta do acusado teve consequências que ultrapassaram as perdas financeiras, atingindo a estabilidade psicológica, a autonomia e a vida profissional da vítima.
A sentença destacou que Renato explorou a confiança estabelecida no relacionamento e apresentou sucessivas situações de urgência para conseguir transferências bancárias.
O pedido para recorrer em liberdade foi negado, diante do entendimento judicial de que existia risco de continuidade da prática criminosa.
Vítima se formou em Direito e participou da acusação
Um dos aspectos marcantes do caso foi a trajetória da executiva durante os anos em que buscou a responsabilização do acusado.
Quando conheceu Renato, ela estava no início da graduação em Direito. Ao longo do processo, concluiu o curso, obteve registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e passou a atuar profissionalmente na área jurídica.
Já formada, participou voluntariamente da acusação como assistente do Ministério Público.
A mulher também ingressou com uma ação na esfera cível, buscando a atualização dos valores devidos para tentar reduzir o impacto da dívida bancária.
Apesar da condenação, ela reconhece que ainda não existe garantia de recuperação do dinheiro, pois a restituição depende, entre outros fatores, da existência de recursos ou bens do condenado.
Para a vítima, a decisão judicial representa um importante reconhecimento do sofrimento enfrentado e do trabalho realizado pelas mulheres que contribuíram para a investigação.
Ela espera que outras possíveis vítimas procurem a Polícia Civil ou o Ministério Público para apresentar denúncias.
Condenado admitiu ter enganado a mulher e pediu desculpas
Durante o julgamento, Renato reconheceu ter mentido para conseguir dinheiro da executiva, mas negou que tivesse iniciado o relacionamento com a intenção de cometer um golpe.
Ele afirmou que parte dos recursos teria sido utilizada para custear o tratamento médico da mãe, que morreu posteriormente.
O condenado também declarou ter enfrentado problemas emocionais e depressão. Segundo seu depoimento, as dívidas se acumularam até atingir uma situação que ele não conseguiu controlar.
Renato disse não se recordar de algumas informações falsas apresentadas à vítima, incluindo a promessa de recebimento de uma indenização judicial milionária.
Ao prestar esclarecimentos à Justiça, manifestou arrependimento, pediu desculpas à mulher e afirmou ter intenção de devolver os valores.
De acordo com a reportagem original do g1, a defesa do condenado não havia sido localizada para comentar a decisão até a publicação da matéria.
Caso chama atenção para riscos do estelionato amoroso
A condenação evidencia uma modalidade de fraude conhecida como estelionato amoroso, caracterizada pela utilização de vínculos afetivos e relações de confiança para obter vantagens financeiras indevidas.
Nesse tipo de situação, o autor pode construir uma identidade aparentemente confiável, demonstrar interesse romântico e apresentar emergências pessoais para convencer a outra pessoa a realizar transferências ou contratar empréstimos.
Especialistas em segurança recomendam cautela diante de pedidos frequentes de dinheiro, especialmente quando envolvem situações urgentes, promessas de restituição futura e informações difíceis de verificar.
Pessoas que suspeitam ter sido vítimas de fraudes semelhantes podem registrar boletim de ocorrência, preservar mensagens, comprovantes de transferências e outros documentos que ajudem na investigação.
O caso de São Paulo mostra como a manipulação emocional pode provocar consequências financeiras e psicológicas duradouras, além de destacar a importância das denúncias e da atuação das autoridades na responsabilização dos envolvidos.

