Fim das bets pode devolver R$ 3,6 bilhões à economia do Paraná e fortalecer comércio e supermercados
Estudo aponta que a proibição das apostas online pode impulsionar o PIB paranaense em R$ 2,3 bilhões. Supermercados já registram crescimento nas vendas, principalmente de alimentos essenciais.
A proibição das plataformas de apostas online no Brasil poderá provocar mudanças significativas na economia do Paraná. Um levantamento realizado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) revela que os moradores do estado destinavam aproximadamente R$ 3,6 bilhões por ano às chamadas bets, recursos que agora poderão ser direcionados ao consumo das famílias e ao fortalecimento de diferentes setores comerciais.
De acordo com as projeções do instituto, a redistribuição desse dinheiro tem potencial para acrescentar cerca de R$ 2,3 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) paranaense. Entre os segmentos que poderão se beneficiar estão supermercados, estabelecimentos varejistas, atacadistas e empresas ligadas ao fornecimento de produtos essenciais.
O diretor de pesquisa do Ipardes, Julio Suzuki, avalia que uma parcela expressiva dos valores anteriormente destinados às apostas poderá retornar à circulação econômica, estimulando as vendas e contribuindo para a geração de renda no estado.
Supermercados registram aumento nas compras após proibição
Os primeiros indicadores apresentados pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontam uma recuperação do consumo alimentar depois da retirada das plataformas de apostas do mercado legal.
Segundo a entidade, nas duas semanas posteriores à proibição, as compras realizadas pelas famílias nos supermercados brasileiros cresceram 6%. Na Região Sul, que compreende Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o avanço foi ainda mais expressivo, chegando a 9%.
Entre os itens que apresentaram maior procura estão alimentos considerados indispensáveis no orçamento doméstico, como arroz, óleo de cozinha, macarrão e café.
Os números sugerem que parte dos recursos anteriormente comprometidos com apostas pode estar sendo redirecionada para necessidades básicas. Entretanto, a confirmação de uma relação direta entre o encerramento das bets e o crescimento das vendas dependerá de análises econômicas mais detalhadas.
O presidente da Abras, João Carlos Galassi, destacou que os impactos das apostas sobre a renda familiar prejudicaram especialmente o consumo de alimentos. Segundo estimativas apresentadas pela entidade, somente em 2026, as famílias brasileiras deixaram de destinar mais de R$ 50 bilhões à aquisição de produtos alimentícios em razão dos recursos comprometidos com apostas.
O crescimento recente das vendas foi percebido em diferentes modalidades de estabelecimentos, principalmente naquelas frequentadas por consumidores das classes C, D e E, grupos que tradicionalmente comprometem uma parcela significativa da renda mensal com alimentação.
Governo federal proibiu plataformas de apostas em setembro
A mudança no mercado brasileiro ocorreu em 25 de setembro de 2026, quando o governo federal publicou uma medida provisória proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no território nacional.
A decisão atingiu plataformas de apostas esportivas e jogos virtuais, incluindo modalidades populares de cassinos online. Os sites e aplicativos autorizados tiveram um período de transição para encerrar suas atividades, com a retirada das plataformas a partir de 6 de outubro.
Antes da proibição, dados do Banco Central indicavam que o setor movimentava até R$ 30 bilhões mensais em todo o Brasil, demonstrando a dimensão financeira alcançada por esse mercado.
Embora as apostas esportivas tenham sido legalizadas em 2018, sua regulamentação específica ocorreu apenas no final de 2023. Durante o período de funcionamento regulamentado, o governo arrecadou aproximadamente R$ 15 bilhões em tributos relacionados ao setor, conforme os dados apresentados na reportagem original.
Apesar dessa arrecadação, o governo federal considerou que os efeitos negativos das apostas sobre o endividamento, a estabilidade financeira e a saúde da população justificavam a adoção de medidas mais rigorosas.
Proibição das bets ainda depende de análise do Congresso
A continuidade da proibição também envolve discussões políticas e jurídicas. Como a decisão foi estabelecida por medida provisória, sua permanência definitiva depende da apreciação do Congresso Nacional.
A Medida Provisória nº 1.394/2026 possui força de lei desde sua publicação, mas precisa passar pelo processo legislativo previsto na Constituição Federal para ser convertida definitivamente em lei.
O Supremo Tribunal Federal (STF) também acompanha a controvérsia envolvendo a atividade das empresas de apostas. Em audiência pública realizada em 3 de novembro, representantes do governo, organizações da sociedade civil, entidades esportivas e especialistas discutiram os efeitos econômicos e sociais da medida.
O ministro Luiz Fux conduz a relatoria das ações judiciais relacionadas ao assunto. Os processos abrangem questionamentos tanto sobre a proibição das plataformas quanto sobre a legislação que anteriormente regulamentava o funcionamento do setor.
Ainda não existe uma data definida para o julgamento definitivo dessas ações pelo Supremo.
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Foto: Isabela Ortiz/g1
Endividamento e dependência de jogos preocupam autoridades
Além dos possíveis benefícios econômicos, o encerramento das bets foi motivado por preocupações envolvendo o comportamento compulsivo de jogadores e as consequências das apostas para milhares de famílias brasileiras.
Entre os principais problemas apontados estão o acúmulo de dívidas, a utilização de recursos destinados às despesas domésticas, os conflitos familiares e os prejuízos à saúde mental.
A dependência de apostas pode provocar consequências que ultrapassam as perdas financeiras, afetando relacionamentos, desempenho profissional e condições emocionais dos envolvidos.
Um brasileiro entrevistado pela RPC relatou que enfrentou mais de quatro anos de dependência de jogos online. Durante esse período, acumulou prejuízos financeiros e passou por graves dificuldades familiares, incluindo o desgaste de seu casamento e o sofrimento emocional de pessoas próximas.
Após reconhecer a gravidade da situação, ele procurou auxílio em um grupo especializado no atendimento a pessoas com comportamento compulsivo relacionado às apostas.
O acolhimento oferecido por esses grupos permite que participantes compartilhem experiências e recebam apoio durante o processo de recuperação, sem julgamentos ou constrangimentos.
Especialistas destacam que a dependência de jogos exige atenção e, em muitos casos, acompanhamento profissional para reduzir o risco de recaídas e reconstruir a estabilidade pessoal e financeira.
Dinheiro antes destinado às apostas pode fortalecer a economia paranaense
Para o Paraná, a possibilidade de recuperar parte dos bilhões de reais anteriormente destinados às plataformas representa uma oportunidade de fortalecimento da atividade econômica.
Com maior disponibilidade de recursos, famílias poderão ampliar as compras de alimentos, medicamentos, roupas, materiais escolares e outros produtos necessários ao cotidiano.
O eventual aumento da demanda também poderá beneficiar pequenos empresários, comerciantes locais, distribuidores e prestadores de serviços, contribuindo para movimentar diferentes cadeias produtivas.
Os impactos positivos, entretanto, dependerão da efetiva redução dos gastos com apostas, do comportamento dos consumidores e da capacidade de impedir a migração dos jogadores para plataformas clandestinas.
As projeções do Ipardes indicam um cenário favorável para o estado, mas os resultados econômicos precisarão ser acompanhados ao longo dos próximos meses.
Enquanto o futuro jurídico das bets permanece em discussão, os indicadores iniciais apresentados pelo setor supermercadista apontam para uma possível mudança nas prioridades de consumo das famílias brasileiras, com maior participação de produtos essenciais no orçamento doméstico.
Fonte: G1

