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Quadrilha internacional faturou R$ 90 milhões com contrabando de ovos de aves brasileiras, aponta PF

Esquema criminoso retirava ovos de espécies ameaçadas da Mata Atlântica e os comercializava no exterior por valores de até R$ 6 mil cada. Operação conjunta resultou em prisões no Paraná e na Espanha.

Uma investigação conduzida pela Polícia Federal, em parceria com autoridades policiais europeias, revelou a atuação de uma rede internacional de tráfico de ovos de aves brasileiras que teria movimentado aproximadamente R$ 90 milhões. Conforme informações divulgadas pelo Fantástico, da TV Globo, os envolvidos retiravam ovos de espécies ameaçadas de extinção de seus habitats naturais e os negociavam no mercado internacional, onde cada unidade podia alcançar R$ 6 mil.

As investigações tiveram início após a prisão da cidadã suíça Erika Zumofen-Göllesz no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Durante uma tentativa de embarque para a Suíça, ela foi surpreendida transportando 24 ovos escondidos junto ao corpo, protegidos por meias de seda. Os exemplares pertenciam às espécies papagaio-de-cara-roxa e papagaio-charão, ambas nativas do território brasileiro e ameaçadas de desaparecer da natureza.

O histórico de deslocamentos da investigada chamou a atenção das autoridades. Erika havia realizado 31 viagens entre a Suíça e o Brasil, geralmente permanecendo poucos dias no país. Seus trajetos incluíam passagens por Curitiba, enquanto os retornos ao exterior frequentemente aconteciam pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.

Embora tenha sido liberada após prestar esclarecimentos, a suíça teve seu telefone celular recolhido pelos investigadores. A análise do dispositivo permitiu identificar conexões com outros possíveis integrantes da organização e ampliou o alcance das apurações.

Entre os contatos encontrados estavam o suíço Hans Zehnder, proprietário de dois grandes criadouros de aves na Suíça, e integrantes da família de Marco Schwarz, residente em Curitiba, no Paraná.

Marco, sua esposa e sua filha administravam, na própria residência, um estabelecimento especializado na comercialização de equipamentos utilizados na captura e no manejo de animais. Segundo a investigação, os familiares são suspeitos de abastecer os traficantes com ovos retirados ilegalmente da natureza.

A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que parte dos exemplares comercializados era coletada diretamente de ninhos situados em reservas ambientais e unidades de conservação na região de Bocaiúva do Sul, no Paraná.

As apurações indicam que o esquema funcionava havia aproximadamente duas décadas. Nesse período, os suspeitos teriam realizado cerca de 120 deslocamentos internacionais, transportando, em média, 20 ovos por viagem.

A atividade criminosa se intensificava entre agosto e março, época que corresponde ao período reprodutivo de diversas aves da Mata Atlântica, facilitando a retirada dos ovos dos ninhos.

Operação internacional termina com prisões na Espanha e no Paraná

O avanço das investigações levou a Polícia Federal a acompanhar uma viagem de Marco Schwarz, que deixou Curitiba com destino a Zurique, na Suíça. Dois agentes brasileiros foram enviados à Europa para monitorar a movimentação do investigado.

Com a colaboração das autoridades suíças e espanholas, os policiais seguiram Marco e Hans Zehnder até a ilha de Gran Canária, pertencente à Espanha.

Os dois homens acabaram presos em flagrante dentro de um quarto de hotel. Durante a abordagem, os investigadores localizaram aproximadamente R$ 260 mil em dinheiro, distribuídos entre notas de euros e francos suíços.

Após a prisão, Marco Schwarz e Hans Zehnder foram encaminhados a Madri, onde permanecem aguardando os procedimentos relacionados à extradição para o Brasil.

A Polícia Nacional da Espanha continua examinando os documentos e aparelhos telefônicos apreendidos na operação. O objetivo é descobrir quem receberia os ovos na ilha e identificar possíveis participantes adicionais do esquema internacional.

Enquanto as detenções aconteciam em território espanhol, equipes da Polícia Federal executavam mandados de busca e prisão em Curitiba.

Rita Lydia Schwarz e Cláudia Fabiana Schwarz, respectivamente esposa e filha de Marco, foram presas durante a operação.

No imóvel utilizado como residência e estabelecimento comercial da família, os policiais encontraram 61 animais empalhados e 130 partes de animais, incluindo dentes e crânios de espécies ameaçadas de extinção.

Entre os materiais recolhidos estavam restos de micos-leões-de-cara-dourada e de primatas originários da Colômbia. As apreensões estão relacionadas a possíveis infrações previstas na legislação brasileira de crimes ambientais.

A suíça Erika Zumofen-Göllesz, cuja detenção no Galeão deu origem às investigações, é considerada foragida.

Em manifestação enviada à imprensa, a defesa de Cláudia Fabiana Schwarz informou que ela responde ao caso em liberdade provisória e declarou que ainda não havia conseguido acesso aos documentos do processo.

As equipes de reportagem não conseguiram localizar os advogados responsáveis pela defesa dos demais investigados.

Transporte ilegal compromete a sobrevivência dos embriões

Além dos danos provocados à fauna brasileira, o contrabando de ovos representa uma ameaça direta à sobrevivência dos animais ainda em desenvolvimento.

O transporte clandestino, realizado frequentemente em condições inadequadas, provoca a morte de grande parte dos embriões antes mesmo da eclosão.

A bióloga Fernanda Guida, integrante da equipe do Zoológico de São Paulo, explicou que o desenvolvimento dos filhotes dentro dos ovos depende de condições ambientais cuidadosamente controladas.

A temperatura e a umidade precisam permanecer em níveis apropriados durante todo o período de incubação. Alterações nesses fatores podem comprometer o desenvolvimento embrionário e provocar a morte das aves.

Um exemplo das consequências desse tipo de crime foi registrado com os 24 ovos encontrados junto ao corpo de Erika Zumofen-Göllesz no Aeroporto do Galeão. Desse total, somente nove papagaios conseguiram nascer.

Investigada tentava viajar com ovos no sutiã — Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

Fiscalizações identificam novas tentativas de contrabando

Outras ocorrências recentes reforçaram a preocupação das autoridades com a retirada ilegal de ovos de aves silvestres brasileiras.

Em Foz do Iguaçu, no Paraná, um casal de cidadãos chineses foi preso transportando 34 ovos escondidos em incubadoras improvisadas, instaladas dentro de uma sacola e nas costuras de uma jaqueta.

Dos exemplares apreendidos nessa ocorrência, 18 filhotes conseguiram nascer e atualmente recebem acompanhamento especializado de médicos-veterinários e zootecnistas.

Outra fiscalização realizada no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, resultou na apreensão de 71 ovos em um intervalo de apenas cinco dias.

Segundo as autoridades, as cargas tinham como destino a China e o Vietnã. Após a apreensão, os ovos foram encaminhados ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS), vinculado ao governo estadual.

Especialistas trabalham para preservar as espécies resgatadas

A recuperação dos animais retirados do tráfico exige cuidados que vão além da incubação e do nascimento dos filhotes.

Como muitas dessas aves precisam receber alimentação diretamente das mãos dos profissionais responsáveis pelo tratamento, acabam desenvolvendo grande proximidade com os seres humanos.

Esse comportamento representa um obstáculo para a devolução imediata dos animais ao ambiente natural, pois a familiaridade com pessoas pode reduzir sua capacidade de reconhecer ameaças e sobreviver de maneira independente.

De acordo com Fernanda Guida, uma das estratégias adotadas pelos especialistas consiste em proporcionar condições para que os papagaios resgatados formem casais e consigam se reproduzir dentro do zoológico.

A expectativa é que os descendentes dessas aves, criados com comportamentos mais próximos dos encontrados na natureza, possam futuramente ser devolvidos às florestas brasileiras.

O trabalho de reprodução e conservação busca contribuir para a manutenção das populações dessas espécies, especialmente diante dos prejuízos causados pela retirada de ovos dos ninhos e pelo comércio internacional clandestino.

Fonte: G1

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