Mulher encontrada após 18 anos de isolamento no interior de São Paulo relata ter sofrido bullying na adolescência
Uma mulher de 33 anos, que permaneceu afastada do convívio social por cerca de 18 anos, foi localizada na última segunda-feira (26) em uma residência de Cristais Paulista, município da região de Franca, no interior de São Paulo. A descoberta ocorreu durante uma ação conjunta da Polícia Civil e de profissionais da saúde. No momento da abordagem, ela estava em um ambiente escuro, sem circulação adequada de ar, e demonstrou bastante receio diante da presença de pessoas desconhecidas.
A mobilização das autoridades teve início depois que uma denúncia sobre suspeitas de maus-tratos foi registrada no Disque 100. Ao chegarem ao endereço, os agentes encontraram condições inadequadas de higiene e perceberam que a moradora apresentava sinais de comprometimento nutricional.
Na residência também vivia a mãe da mulher, uma idosa de 71 anos. Após a fiscalização, a Vigilância Sanitária determinou a interdição do imóvel, enquanto mãe e filha passaram a receber acolhimento de familiares.
A ocorrência envolveu profissionais da Polícia Civil, da rede municipal de Saúde e da Assistência Social, responsáveis pelos encaminhamentos necessários para garantir a proteção e o acompanhamento das duas moradoras.
Quem é a mulher que permaneceu isolada durante quase duas décadas?
A moradora tem 33 anos e vive em Cristais Paulista, no interior paulista. Conforme as informações apresentadas pela Polícia Civil, ela abandonou a escola por volta dos 15 anos, depois de enfrentar situações recorrentes de bullying relacionadas a alterações físicas na região do tórax e das costas.
Após deixar o ambiente escolar, a jovem passou a evitar o contato com pessoas que não faziam parte de sua residência. Esse afastamento se prolongou por aproximadamente 18 anos, período em que permaneceu praticamente sem interação com o mundo exterior.
Durante esse tempo, ela dividiu a casa com a mãe, atualmente com 71 anos. Segundo os relatos das autoridades, a idosa também mantinha uma rotina de afastamento social e evitava receber outras pessoas no imóvel.
O secretário municipal de Saúde, Bruno Felipe de Carvalho, informou que nenhuma das duas possui renda atualmente. Ele também declarou que mãe e filha não são beneficiárias de programas sociais.
Denúncia ao Disque 100 levou as autoridades até a residência
A situação chegou ao conhecimento dos órgãos responsáveis por meio de uma comunicação feita ao Disque 100, serviço disponibilizado pelo governo federal para receber denúncias de possíveis violações dos direitos humanos.
Na segunda-feira (26), uma equipe da Polícia Civil, acompanhada por policiais militares, compareceu ao imóvel para averiguar as informações. Como os moradores não responderam aos chamados, os agentes realizaram a entrada na residência após contato com o delegado Gabriel Fernando da Silva, encarregado da ocorrência.
Durante a vistoria, os profissionais identificaram que uma das moradoras permanecia afastada do convívio social havia muitos anos. Também verificaram que o interior da casa apresentava problemas relacionados à limpeza e à conservação dos ambientes.
O endereço, entretanto, já havia chamado a atenção das autoridades sanitárias anteriormente. Em 2017, a Vigilância Sanitária realizou uma intervenção depois de receber reclamações sobre o acúmulo de resíduos e o possível surgimento de criadouros do mosquito transmissor da dengue.
Naquela oportunidade, os serviços de limpeza ficaram restritos à parte externa da propriedade. De acordo com o secretário municipal de Saúde, depois da intervenção, as duas residentes passaram a não atender os profissionais durante as visitas periódicas de acompanhamento.
Como estava a mulher no momento em que foi localizada?
Os agentes encontraram a mulher dentro de um quarto com iluminação insuficiente, sem ventilação apropriada e marcado por um odor intenso. Renata Valéria de Souza Pinto, responsável pela Divisão de Saúde Pública da Vigilância Sanitária, relatou que a presença dos profissionais provocou uma reação de medo na moradora, que chegou a gritar ao perceber a aproximação de desconhecidos.
Diante da resistência inicial, a equipe precisou conduzir a abordagem com cautela, buscando estabelecer um vínculo de confiança. O objetivo era fazer com que ela se sentisse segura para sair do cômodo e concordasse em passar por uma avaliação médica.
A inspeção também revelou a existência de numerosos objetos espalhados pela residência, materiais sem utilização e resíduos acumulados. As condições gerais de higiene foram consideradas inadequadas pelos profissionais responsáveis pela fiscalização.
Em razão do cenário encontrado, a Vigilância Sanitária decidiu interditar a casa até que fossem realizados os procedimentos de limpeza necessários. Os familiares receberam uma notificação determinando a execução do serviço dentro do prazo estabelecido pelas normas municipais.
Segundo Renata, a grande concentração de materiais no imóvel despertou a suspeita de que a mãe possa apresentar um transtorno de acumulação. A hipótese, porém, ainda não foi confirmada por diagnóstico profissional.
A avaliação médica realizada na mulher de 33 anos não encontrou sinais de agressões físicas. Apesar disso, os profissionais identificaram indícios compatíveis com desnutrição, anemia e carência de vitaminas, condições que exigem atenção e acompanhamento de saúde.
Mulher contou que o isolamento começou após episódios de bullying na escola
Ao conversar com os profissionais que participaram da ocorrência, a mulher explicou que o afastamento social teve início depois de experiências de bullying durante a adolescência. Conforme seu relato, as ofensas estavam relacionadas a uma alteração física que possui no tórax e nas costas.
A Polícia Civil informou que ela deixou de estudar após terminar a antiga 8ª série, quando estava com aproximadamente 15 anos. A partir daquele período, passou a permanecer dentro de casa, evitando estabelecer relações com pessoas externas ao ambiente familiar.
Renata Valéria de Souza Pinto afirmou que, durante os primeiros contatos, a moradora demonstrava receio e fazia questão de esclarecer que não havia sido vítima de violência por parte da mãe. Segundo a profissional, a mulher reiterou diversas vezes que a idosa nunca a havia maltratado.
Com uma abordagem cuidadosa, a agente de saúde conseguiu convencê-la a receber assistência médica. No dia seguinte ao primeiro encontro, Renata retornou à residência na companhia de um investigador, dando continuidade à aproximação iniciada durante o atendimento.
Nessa segunda visita, a profissional levou flores e chocolates como forma de demonstrar acolhimento. A atitude contribuiu para fortalecer a confiança da mulher, que passou a interagir de maneira mais espontânea com a agente.
Durante a conversa, a moradora chegou a perguntar se Renata aceitaria ser sua amiga. A profissional respondeu de maneira afetuosa, explicando que já se considerava amiga dela desde o primeiro encontro, quando havia se apresentado e oferecido apoio.
O episódio evidenciou a importância da aproximação humanizada no atendimento à mulher, que passou grande parte de sua vida adulta distante das relações sociais. Após a intervenção das autoridades, ela e a mãe ficaram sob os cuidados de familiares, enquanto os órgãos responsáveis deram encaminhamento às necessidades identificadas durante a ocorrência.
Fonte: G1

