Aos 68 anos, Pedro Bial relata problema de saúde causado pelo cigarro: “Sou um arrependimento ambulante”
Dos noticiários ao “Big Brother”, dos livros aos documentários, do Paleolítico à inteligência artificial, existem muitos Pedros dentro de um só. Da mistura deles surge um jovem de 68 anos, que conta aqui o que mantém a vida interessante
Nunca foi tão fácil falar com alguém e, ao mesmo tempo, tão difícil se fazer compreender. Esse paradoxo tem marcado algumas reflexões de Pedro Bial, que dedicou quase meio século de seus 68 anos ao ofício de transmitir ideias por meio de diferentes mídias. “A incomunicabilidade reina hoje”, diz o jornalista carioca, que decidiu transformar esse ruído em matéria-prima para um de seus próximos projetos profissionais, Reflexos – nome provisório de um filme de ficção, com Valentina Bandeira e os irmãos Júlio e Ravel Andrade, que ele pretende tirar do papel em 2027. “Estou no quarto tratamento do roteiro. Quero falar do assunto com humor, com amor, com música.”
O tema da comunicação truncada aparece em um livro que Bial leu recentemente, curtiu muito e recomenda durante nossa sessão de fotos: Os Imortais, da brasiliense Paulliny Tort. A obra imagina os primeiros encontros entre neandertais e Homo sapiens, duas espécies humanas que compartilharam a Terra, mas não necessariamente conseguiam se compreender mutuamente. “É o melhor dos últimos anos, disparado”, atesta.
Segundo ele, o universo paleolítico retratado no romance permite analogias com a vida do século XXI, especialmente no que diz respeito à nossa convivência com a inteligência artificial. “O neandertal foi extinto porque surgiu uma espécie mais eficiente. Agora, com a IA, estamos criando algo mais eficiente que a gente”, analisa.
A frase pode criar a impressão de que ele é avesso à tecnologia, mas não é o caso. Embora não deixe de temer os desdobramentos da evolução acelerada das máquinas, Bial decidiu ter aulas com um especialista para incorporar modelos de inteligência artificial à sua rotina produtiva.
“Resisti por muito tempo, simplesmente ignorei. Em um primeiro momento, tive aquela visão ingênua de que nós poderíamos escolher usar ou não”, lembra. “Daí achei burrice me recusar a explorar as possibilidades. Estou amestrando a minha IA e começando a perceber em que ela pode ser útil.” Deu mais certo em tarefas repetitivas do que nas vezes em que tentou aplicar o recurso para fins criativos de escrita.
A curiosidade em experimentar o novo talvez seja uma das chaves para a carreira longeva construída por Bial. Muitos brasileiros cresceram em um mundo em que ele brilhava na telinha (hoje cada vez mais telona) dos televisores. Para algumas gerações, ele foi o jornalista que cobriu a reunificação da Alemanha. Para outras, o apresentador do “Fantástico” ou o cara do “Big Brother Brasil”, reality que comandou durante dezesseis temporadas. “O fato de eu me manter interessado no trabalho me permite abraçar novas ideias, novas missões, novas funções”, pontua.
Parte de suas reinvenções aconteceu por iniciativa própria parte devido ao imponderável da vida, uma via de mão dupla em que estar aberto para novos desafios faz com que eles apareçam em seu caminho.
“Quando somos adolescentes, temos fantasias sobre que sonhos vamos realizar, o que queremos fazer como profissionais, como pessoas. Aí vem o real. Você vai pegando os bondes que passam, e alguns levam próximo do que você fantasiava ali atrás. Por exemplo, com 10 anos de idade, pedi ao meu pai um cartão em que tinha escrito ‘Pedro Bial, repórter’. Quinze anos depois, eu era correspondente”, conta.
Outro sonho da juventude consistia em trabalhar com cinema, que ele concretizou em diferentes produções. Virou roteirista, diretor, atuou, dublou personagens… Em fevereiro, tornou-se diretor artístico do Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo. Já estava envolvido nessa área há mais tempo, é verdade, em obras como Xuxa, o Documentário e Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho, ambos de 2023, para citar dois dos mais célebres. “Várias inteligências artificiais têm tirado empregos na indústria. O documentário está livre disso, sempre precisará de gente de verdade”, garante.


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